A caçada pelos executivos

Isto É Dinheiro – INVESTIDORES
por Carlos Sambrana

Sobram cargos, faltam profissionais e os salários subiram. Saiba o que você precisa para ser cobiçado

01 Agosto 2011 – Se você está lendo esta matéria, prepare-se. Tire o seu terno do armário, arrume o cabelo, faça um belo retrato e mostre o seu talento para o mercado de trabalho. O espaço vago na capa desta edição pode, em breve, ser seu. Desde o milagre econômico, na década de 70, o mercado brasileiro de contratações não passa por um momento tão aquecido. Há vagas de sobra e profissionais em falta. “A demanda por executivos qualificados está muito acima do que o Brasil é capaz de oferecer”, diz Sam Osmo, sócio da Korn Ferry, empresa especializada em recrutamento de executivos de alto escalão. Esse fenômeno, é bom salientar, teve início no fim de 2006 e se acentuou no primeiro semestre do ano. Entre os principais motivos desta fase de ouro no mercado executivo estão a enorme quantidade de empresas abrindo capital na Bovespa (neste ano, 31 companhias fizeram ofertas iniciais de ações), a corrida pelo etanol, os investimentos no agronegócio, a explosão do setor imobiliário com a fartura de crédito, o aumento do consumo e a demanda por serviços de tecnologia. “De um ano para o outro os salários dos grandes executivos subiram 30%”, afirma Denys Monteiro, sócio da Fesa Global Recruiters.

O que faz a diferença no mercado é ter boa formação , ter trabalho no exterior e conhecer práticas de gestão

Mas quem são esses profissionais tão requisitados pelo mercado? DINHEIRO conversou com as maiores consultorias de head hunters do País e escutou executivos recém-contratados para responder essa pergunta e desvendar os motivos que levaram ao atual apagão de talentos. “Nas últimas décadas, o Brasil não cresceu como se esperava e isso gerou um grande contingente de jovens sem empregos e profissionais maduros sem experiência”, diz Antônio Joaquim Motta Carvalho, sócio-fundador da Panelli Motta Cabrera. Agora, as exigências são maiores e quem se encaixa no perfil procurado é contratado a peso de ouro. Os salários médios dos presidentes de empresas estão na faixa dos R$ 80 mil mensais – com bônus de seis a doze salários no fim do ano. “Esse profissional tem de ser versátil, mostrar que tem capacidade para atuar no Brasil e em qualquer empresa do mundo”, diz Osmo, da Korn Ferry. “O ideal é ter trabalhado no Exterior e ter conhecimento de práticas internacionais de gestão.” Somado a isso, o executivo de hoje deve reunir boa formação acadêmica, profundo conhecimento técnico e, obviamente, estar alinhado com a cultura da futura empresa.

R$ 80 mil mensais é quanto ganha, em média, um presidente de empresa

O novo presidente do braço de etanol do grupo Odebrecht, Clayton de Miranda, de 51 anos, contratado há apenas um mês, é um desses profissionais disputados pelo mercado. “Não medimos esforços para contratar o melhor executivo”, diz Guilherme Abreu, diretor de planejamento, organização e pessoas do grupo Odebrecht. Formado em engenharia química, Miranda trabalha no setor de agronegócio e etanol há quase trinta anos. “Em 1979, participei da primeira exportação de álcool do Brasil”, diz Miranda. Esteve em grandes empresas do setor como Cotia Trading e, até o início desse ano, presidia a Coimex. “Estamos entrando no mercado para conquistar a liderança”, diz o executivo. Para isso, a Odebrecht vai investir R$ 5 bilhões na aquisição e construção de usinas nos próximos cinco anos. Acontece, contudo, que a empresa, como todas as outras do setor, está encontrando algumas barreiras. “Faltam profissionais de A a Z, do motorista ao químico.” Devido a esse entrave, a companhia comprou a usina Alcídia, no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, e está formando 100 novos profissionais. “Provavelmente, eles serão disputados pelo mercado.”

salarios80mil

Para fazer com que os funcionários não sejam seduzidos por propostas da concorrência, algumas empresas implantaram agressivos planos de remuneração e de carreira. A construtora Tecnisa, por exemplo, passou a dar participação nos lucros para todos os funcionários e oferecer stock options para executivos com funções de comando. “Não está fácil recrutar profissionais no setor imobiliário”, diz Tomás Banlaky. Mesmo oferecendo vantagens para os seus funcionários, a companhia não está livre de baixas. Recentemente, a diretora de relações com os investidores deixou a empresa. “Assumi interinamente e estamos à procura de outro profissional para o cargo”, diz Banlaky. A falta de gente qualificada para ocupar esse posto é tão grande que algumas empresas de head hunters estão tentando repatriar executivos brasileiros que trabalham no Exterior. “Estamos em contato com gente que está nos Estados Unidos”, diz Monteiro, da Fesa. O cargo de chief financial officer (CFO) passou a ser, então, um dos mais valorizados. “No Brasil, não existem cinco profissionais disponíveis para esse cargo”, diz Monteiro.

Tentar convencer os brasileiros que trabalham no Exterior a voltar para o Brasil é uma tarefa ingrata. Muitos não querem retornar devido à experiência que se acumula. Outros não voltam porque estão no topo de companhias nos principais mercados capitalistas do mundo. “Os grandes talentos brasileiros estão indo trabalhar no Exterior e essa é uma questão que afeta as empresas de maneira dramática “, diz Osmo, da Korn Ferry. O presidente da empresa de telecomunicações Avaya no Brasil, Cleber Morais, de 41 anos, contratado há três meses para o cargo, já trabalhou no Exterior e agora sente a dificuldade para contratar profissionais requisitados internacionalmente. “A proposta de uma empresa brasileira tem que ser muito mais atrativa”, diz ele. “Na Avaya, como no mercado de tecnologia, há demanda de executivos para todas as áreas: desenvolvedores de software, gerentes e diretores.” Se antes demorava-se 45 dias para preencher uma lacuna na corporação, hoje perde- se o dobro do tempo buscando um profissional qualificado. E, quando é encontrado, esse executivo já tem várias propostas. “Antes de recrutar um profissional, já avisamos ao nosso cliente que ele terá de pagar mais do que pretende”, diz Osmo, da Korn Ferry.

Não é difícil encontrar executivos que tenham duas ou três propostas. Martin Pereyra, de 30 anos, diretor da rede de cafeterias Nespresso no Brasil, recebeu dois convites de trabalho antes de aceitar o desafio de implantar as operações da companhia no País. “Aceitei porque era um projeto desafiador”, diz Pereyra, que antes trabalhava no grupo Louis Vuitton Moët Henessy (LVMH) e já havia atuado em países como Argentina, Venezuela e Uruguai. Paulo Porto, de 36 anos, recém-contratado para a diretoria de vendas e marketing da construtora Klabin Segall, por exemplo, tinha três convites de trabalho quando foi chamado pela empresa. “Trabalhava em telecomunicações e estava estudando o mercado imobiliário”, diz Porto. “A proposta casou com os meus interesses.” No novo setor de atuação, ele tem visto a dificuldade de encontrar profissionais. “Estão faltando engenheiros e arquitetos que conheçam bem o segmento de incorporação”, diz Porto. No agronegócio, o cenário é pior.

“Não encontramos gestores que entendam de custos de produção por hectare, que tenham noções de administração e conheçam modelos de financiamento”, diz Jeffrey Abrahams, head hunter da consultoria que leva o seu nome. “O Brasil também está carente de profissionais que dominem o idioma inglês para falar com investidores externos.”

A disputa por executivos preparados e a escassez de mão-de-obra qualificada aconteceu porque o Brasil ficou estagnado durante décadas e grande parte dos profissionais assistiu o bonde passar. Por isso, agora é o momento de ficar antenado nos segmentos que têm tudo para emplacar. Um deles ganhou destaque nos EUA e, aos poucos, desembarca no mercado brasileiro: o cargo de chief sustainability officer (CSO). Trata-se do encarregado de manter a empresa dentro dos padrões de crescimento sustentável, com respeito ao meio ambiente e aos funcionários. “Essa carreira ainda é incipiente no Brasil”, diz Abrahams. Mas, com a abertura de capital das companhias e os olhos do mundo voltados para as reservas naturais do planeta, ela tem tudo para crescer e se tornar a bola da vez. Está esperando o quê?